PEDOFILIA NA IGREJA
Escândalos de pedofilia ameaçam a reputação do papa Bento XVI, que é acusado de acobertar abusos contra crianças quando era arcebispo de Munique, na Alemanha
Vaticano nega que celibato seja a causa
Escândalos de pedofilia ameaçam a reputação do papa Bento XVI, que é acusado de acobertar abusos contra crianças quando era arcebispo de Munique, na Alemanha
ALESSANDRO BIANCHI/REUTERS
30/3/2010
Para cardeal, o celibato não tem relação com os casos de pedofilia; "não é um dogma, mas sim uma antiga tradição"
Roma. O presidente do Conselho Pontifício para a Promoção dos Cristãos, o cardeal alemão Walter Kasper, declarou, ontem, que o celibato não tem relação com o escândalo de abuso sexual de crianças por padres na Igreja Católica da Europa e Estados Unidos. Há semanas, novos casos são revelados quase diariamente e chegam até mesmo a ameaçar a reputação do papa Bento XVI.
A onda de escândalos de pedofilia que afeta a Igreja Católica da Irlanda, Holanda, Alemanha, Áustria, Espanha e Estados Unidos gerou um intenso debate sobre as repercussões do celibato e da abstinência sexual nos sacerdotes, uma tradição milenar que o Vaticano defende de modo ferrenho.
"Todos os especialistas sustentam que a maioria dos abusos acontece dentro da família e não em meios religiosos", afirmou o cardeal alemão, um defensor do celibato, que para ele "não deve ser absolutamente abolido". Kasper considera que abrir o debate sobre o celibato é "o abuso dos abusos e constitui uma instrumentalização dos casos de pedofilia". "O celibato é respeitado na Igreja desde antes de virar uma regra canônica no século XI", recordou Kasper.
"Não é um dogma, sim uma antiga tradição que conserva intacta sua razão e não é necessária revisar esta legislação, nem modificar as coisas", destacou o cardeal alemão. "É inoportuno abrir o tema neste momento, envenenado pelas polêmicas e os escândalos pelos abusos sexuais cometidos por padres e religiosos", acrescentou.
Escândalos
Um escândalo sobre os acobertamentos de abusos sexuais de crianças por parte de padres foi revelado na Igreja Católica da Irlanda e atingiu o Vaticano com intensidade ainda maior que o escândalo semelhante que atingiu os Estados Unidos oito anos atrás.
Muitas alegações de acobertamentos de abusos sexuais envolvem Munique, na época em que o papa foi arcebispo da cidade, entre 1977 e 1981. Grupos de vítimas pedem ainda informações sobre as decisões tomadas pelo papa na época em que dirigiu o departamento doutrinal do Vaticano, entre 1981 e 2005.
Os casos de pedofilia atingiram ainda a Holanda, onde a Igreja Católica recebeu 1.100 denúncias de pessoas que afirmam ter sofrido abusos sexuais por parte de membros do clero entre os anos 50, 60 e 70.
Na Alemanha, as denúncias de pedofilia chegam a 120 e teriam ocorrido entre as décadas de 1970 e 1980 em escolas jesuítas locais. O caso envolveu até mesmo o sacerdote Georg Ratzinger, irmão do papa, que liderava os rapazes do coro da catedral de Regensburg. O sacerdote negou saber dos casos de abusos e foi inocentado pelo Vaticano.
Na semana passada, na Áustria, a imprensa local noticiou casos de abusos cometidos em dois institutos religiosos nas décadas de 70 e 80. Na Espanha, o Vaticano disse saber de 14 casos de abuso sexual de crianças, que teriam ocorrido de janeiro de 2001 até março de 2010.
CINCO ANOS DE MORTE
Bento XVI homenageia João Paulo durante missa
Roma. O papa Bento XVI fez, ontem, uma homenagem ao seu antecessor João Paulo II, que descreveu como um homem de "fé forte como uma pedra", "esperança luminosa" e "caridade fervorosa", durante uma missa comemorativa do aniversário de cinco anos de morte do papa polonês. João Paulo II morreu no dia 2 de abril de 2005, mas, em 2010, esta data coincidiu com a Sexta-feira Santa, por isso, a celebração foi adiantada em alguns dias.
"A vida de João Paulo II seguiu sob o signo da caridade, da capacidade de fazer atos generosos, sem reservas, sem medidas, sem cálculos", disse o papa na sua homenagem.
"Sua progressiva fragilidade física jamais abalou sua fé forte como uma pedra, sua esperança luminosa, sua caridade fervorosa. Ele se deixou consumir por Cristo, pela igreja, pelo mundo inteiro: ele viveu o sofrimento até o último momento por amor e com amor", disse Bento XVI.
O papa ainda falou algumas palavras em polonês para os fieis vindos do país natal de João Paulo II. Bento XVI, no entanto, nada disse sobre a beatificação de João Paulo II, esperada por inúmeros católicos.
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